À Gaia
Não carrego uma imagem
Em relevo no peito.
Carrego no coração
A lembrança.
E sem ser esse pedra
De camada diferente,
É pedra preciosa
Igualmente.
Tenho o meu camafeu, moço!
Não pendurado no pescoço,
Mas impresso no coração.
"Porque, a meu ver, lhe falei, o que tem de ser feito não espera pela disposição do trabalhador, sendo de necessidade que este se dedique seriamente ao seu ofício, em vez de considerá-lo mero passatempo." (Platão, A República, 370 c)
sexta-feira, 10 de junho de 2016
sexta-feira, 22 de janeiro de 2016
BACK TO THE EIGHTIES
A VERDADEIRA HISTÓRIA POR TRÁS DO CLÁSSICO
A VERDADEIRA HISTÓRIA POR TRÁS DO CLÁSSICO
CABEÇA DINOSSAURO DOS TITÃS
Iniciando
uma nova vertente no blog EUTRAPÉLICO, iremos, após um hercúleo, sério e profundo trabalho de
arqueologia, desvendar os segredos de um dos marcos da cultura
brasileira no século XX.
Em
meados da década de 1980 os pais dos rapazes dos Titãs, preocupados com as
traquinagens de seus pimpolhos, resolveram se reunir no restaurante Acrópoles, bairro do Bom Retiro, para decidir o que fazer.
Depois
de horas de conversa em torno da mesa, onde saborearam um delicioso moussaka
com molho bechamel e queijo gratinado, o diagnóstico do grupo, formado por
políticos e membros de famílias ilustres da sociedade paulistana, foi unânime:
só conteriam a rebeldia dos rapazes com o corte da mesada e da ração diária de Sucrilhos
que forneciam aos garotos, normalmente servido as quatro horas da tarde, assim
que acordavam.
O
primeiro a ser avisado das novas foi Arnaldo Antunes, que chapado de heroína
balbuciou:
_
O quê?
_
Não pode ser!
_
Que não é ...
Como
o papo estava muito viajandão para o
pai desse Titã, a conversa foi encerrada com um peremptório
_
É!
Entrementes[1], os
vizinhos do excelso membro do PTB, senhor Almino Monteiro Álvares Affonso, tiveram
seu five o‘clock interrompido aos
gritos do mancebo Serginho:
_
AA UU
_
AA UU
_
Vou deixá-lo louco de tanto gritar
_
Até minha mesada e o Sucrilhos voltar
_
AA UU
_
AA UU
Em
outro bairro chique da capital paulistana Branco Mello disse rispidamente:
_
Papai, o senhor é um troglodita, reacionário, com sua pança de mamute e essa cabeça
dinossauro! Saia do meu quarto agora! E apague a luz e diga para nossa
empregada não entrar antes de anoitecer, pois estou exausto!
Já
com Nando Reis, um dos membros mais socialmente conscientes entre os Titãs, a
conversa com seus pais ganhou logo um viés de crítica à alienação burguesa e
insensibilidade de uma sociedade baseada no capital.
_
Vai cortar, minha mesada, é?!? É isso mesmo?!?
_ Seu primata! Mas que capitalismo selvagem, o o o o ...
Diálogos semelhantes ocorreram nos lares de todos os integrantes da banda.
Assim, sem grana para as drogas e tendo que se alimentar como adultos o primeiro ensaio do grupo após a tragédia haver se abatido sobre eles terminou com uma decisão radical: a partir dali eles assumiriam a identidade de um grupo punk da periferia e extrapolariam toda a revolta adolescente que sentiam diante da incompreensão e brutalidade do sistema.
Assim, sem grana para as drogas e tendo que se alimentar como adultos o primeiro ensaio do grupo após a tragédia haver se abatido sobre eles terminou com uma decisão radical: a partir dali eles assumiriam a identidade de um grupo punk da periferia e extrapolariam toda a revolta adolescente que sentiam diante da incompreensão e brutalidade do sistema.
As
letras refletiriam a vida dura que enfrentavam. O som seria urgente e feroz.
Visceral!
Foi desse modo que surgiu um dos discos mais inteligentes e fundamentais do rock brasileiro.
O
resto é estória.
quinta-feira, 17 de dezembro de 2015
quinta-feira, 26 de novembro de 2015
O gerifalte
e o Morholt parecia o gerifalte que fecham numa gaiola junto com pequenos pássaros: quando ele entra, todos ficam mudos.
sexta-feira, 30 de outubro de 2015
Camafeu
Camafeu: é uma pedra semi preciosa em tom cinza, com duas camadas de cores diferentes, numa das quais apresenta uma figura em relevo, usada como pingente.
À Gaia
Não carrego uma imagem
Em relevo no peito.
Carrego no coração
A lembrança.
E sem ser esse pedra
De camada diferente,
É pedra preciosa
Igualmente.
Tenho o meu camafeu, moço!
Não pendurado no pescoço,
Mas impresso no coração.
À Gaia
Não carrego uma imagem
Em relevo no peito.
Carrego no coração
A lembrança.
E sem ser esse pedra
De camada diferente,
É pedra preciosa
Igualmente.
Tenho o meu camafeu, moço!
Não pendurado no pescoço,
Mas impresso no coração.
terça-feira, 27 de outubro de 2015
Canção do amor imprevisto
O mundo me tornou egoísta e mau.
E a minha poesia é um vício triste,
Desesperado e solitário
Que eu faço tudo por abafar.
Mas tu apareceste com a tua boca fresca de madrugada,
Com o teu passo leve,
Com esses teus cabelos...
E o homem taciturno ficou imóvel,
sem compreender nada,
numa alegria atônita...
A súbita, a dolorosa alegria de um espantalho inútil
Aonde viessem pousar os passarinhos.
Mário Quintana
terça-feira, 15 de setembro de 2015
O amigo do Cáo
MEMÓRIAS DE UM ALUNO
Tive meu encontro com um nome célebre, perdido, citado em nota de rodapé, a título de curiosidade. Era o nome de Baldassare Castiglione, autor de O Cortesão. Aqueles modos pomposos do mundo aristocrático que me eram dados pelas grandes gravuras dos capítulos sobre a alta renascença impressionavam-me o espírito. Eram cavaleiros, guerreiros, nobres que se punham em face da morte em defesa dos valores tão obscuramente prezados pelo adolescente que eu era: honra, coragem, justiça.
Quando descobri ser este o manual de comportamento de seres tão elevados, quis comprá-lo imediatamente. Entrevia em seus ensinamentos toda a distinção por mim imaginada. Não achei o livro, mas me contentei com outro parecido: A arte da prudência, de Baltasar Gracián. Folheei alguns e me encantou o estilo barroco, cheio de contorções sintáticas, malabarismos que ocultavam o sentido dos conselhos e os fazia parecer verdadeiros segredos de iniciado -- vi na adoração daquele estilo o caminho necessário para a iniciação; só os homens que amassem aquelas verdades teriam acesso a elas pela perseverança. Deliciava ao reler aforismo e não compreender nada. Foi o primeiro livro que li por liberdade, seguido do Rei Lear.
Como cheguei até o livro de Shakespeare? Não me acode lembrança. Mas é possível que tenha escutado ser ele o maior dos escritores, aquele que continha todo o conhecimento do céu e da terra. Busquei-o por vontade de me distinguir dos outros. Assim correram os meses, quando alcancei os quinze anos e cheguei no ensino médio. Nada tinha lido de verdade senão dois livros. De poesia, tudo ignorava e qualquer verso rimado me parecia extraordinário. De onde me veio este interesse? Foi, então, que conheci naquele ano um modelo, José Carlos França.
França, meu grande professor. Quando era criança, brincando no pátio da escola, me puxava pelo braço e dizia de cor algum verso misterioso seguido da assinatura do autor. Causava-me impressão um homem que decorasse tantas poesias e as recitasse como parte da própria fala, sem afetação.
Eu ria, mas o admirava em segredo. Seria meu professor quando alcançasse o ensino médio e foi neste ano que se operou sua influência essencial e permanente. França, meu grande professor. Suas aulas de filosofia, depois de convertido ao catolicismo, eram missas sem intróito, sem kyrie, sem comunhão: eram compostas tão somente de homilia, e também de leituras, que não se afastavam em nada do efeito de um evangelho. O maior orador que já vi. Diante dos alunos se transfigurava e todo o organismo se contraía para a penosa expressão da verdade. Ele é da linhagem dos Pe Antônio Vieira. Um pregador, um orador sacro aparelhado de todos os recursos da dicção profana, da piada erótica à invocação dos santos.
Para nós, molequinhos imberbes com a cara furada de bexigas, era um tipo de herói: de autêntica rusticidade caipira, mas de elegância verdadeira; e também verdadeiro poeta, capaz de mover nossos sentimentos mais nobres pela modulação mágica de voz e gesto. Naqueles anos de convívio plantou em meu coração todos os impulsos necessários para que eu me tornasse um homem culto, sem me afeminar, mas, pelo contrário, fazendo da cultura uma maneira de me converter em um homem adulto, uma potência viva. Anos depois concluí que naquela pequena escola de interior existia um homem de letras que seria admirado por La Bruyère, porque "seus discursos elevavam o espírito e inspiravam sentimentos nobres e de coragem".
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